Sunday, April 23, 2006

Uma noite de Sheherazade



Litro e Paica tinham o casamento perfeito. Confiança mútua, franqueza e honestidade, tolerância e afeto espontâneo regiam o relacionamento, que já chegava por agora a uma década.

Até aquela sexta-feira. Ah, as sextas-feiras... Promessas dignas das mil e uma noites, onde escravas lânguidas dançam a dança milenar sob véus translúcidos... Litro saiu para uma noitada com os amigos, devidamente regada a cerveja e pôquer, que prometia encontrar a manhã com muitos palitos de fósforo ganhos e uma sonora dor de cabeça. Coisa da boa.

Até que chegou a mensagem pelo msn, onde um amigo –parceiro da carpeta- perguntava se Litro chegara bem em casa. Estranho, pensou Paica, muito cedo para encerrar a pródiga noite, visto que pretendia encher as burras com fósforos. Era impressionante o que aquela casa consumia fósforos, ela pensou, e lembrou a avó que trazia escondidas as caixas nos bolsos do avental para manter sob férreo controle a casa, sempre à beira do caos sem essa sábia atitude. Muito cedo, mas logo deverá estar em casa, pensou, conferindo a hora e vendo que desde o envio daquela mensagem já se passara mais de uma hora. Paica se preocupou. Porque não chegara Litro ainda? Os motivos eram múltiplos e possíveis: ficara num boteco tocando violão e perdera a noção do tempo. Litro gostava da roda de cantoria, desde que estivesse bem-acompanhado da sua cervejinha. Depois fora colocar gasolina no carro e comprar um refrigerante pra enganar a ressaca e amolecer a patroa. Ela, pensava ela que pensava ele, não fica zangada se tiver um copo de coca-cola nas mãos. Depois, concluiu ela ainda, fora dar umas bandas pela cidade adormecida pra pensar na vida e fazer planos, experimentar o ar mais frio antes do amanhecer. Muito embora o ar da manhã na cidade seja tão poluído quanto o da noite ou de qualquer outra hora do dia. Nada como o ar da praia, pra onde iriam no próximo fim de semana.

O tempo passava e nada de Litro chegar. O relógio marcava seis da matina e a cantoria devia estar muito boa. Boa demais, rosnou ela diante do pensamento. Nenhum posto de gasolina levava mais de duas horas para encher um tanque e ninguém agüentaria aquele fedor de cidade cheia de lixo por mais de quinze minutos. Meia hora no máximo.

Paica intensificou suas preocupações e, das desculpas cândidas passou a motivos mais pungentes que justificassem a ausência do amado. Acidente, claro. Estava evitando aquele pensamento com todas as forças, mas ele vencera a resistência. Seu amado fora abalroado por um bêbado em alguma esquina quando voltava para sua amada e seus amadinhos, incluindo o cão. Uma desgraça era a explicação lógica. Devia ela ligar para o pronto-socorro? Estaria ele tão mal que não avisara pelo celular? Não tinha ninguém naquele maldito hospital pra avisar a esposa ignara e desgraçada do terrível acontecimento? Bastards! Mas isso a tranqüilizou, entrementes. Se não ligaram do hospital então não era muito grave. Umas escoriações e nada mais, nada que justificasse afligir a família. Logo Litro seria liberado e estaria em casa. Que merda. Logo agora que o carro estava sem seguro fora destruído. Paica afastou o pensamento, envergonhada de sua natureza vil, e o adiou para depois que Litro estivesse na segurança do lar. Depois se preocuparia com dinheiro, coisa ignóbil.

A manhã começava a despontar –pelo menos parecia, visto pela janela que ficava à sombra dos prédios, onde a luz hesitava em entrar... Paica começou a imaginar que, tivesse Litro feito todas essas coisas, mesmo assim já deveria ter chegado. Pôquer, rodada extra de cerveja, festa no boteco, posto de gasolina, banda pela cidade, acidente sem graves conseqüências... Por onde andava aquela criatura? Foi quando Paica, esgotadas as desculpas enriquecidas por detalhes indescritíveis, lembrou do sonho da noite anterior que lhe anunciara uma traição. Sonhara com aranhas e era sempre assim. Batata! Aranha, traição.

E as suspeitas inatas de qualquer mulher afloraram, em borbotões, após luta encarniçada: outra mulher.

Um caso antigo, mantido por desculpas furadas e pôqueres amigos e a cumplicidade dos parceiros, onde a paixão se impusera sobre a razão e a luxúria vencera o afeto e calor da família carinhosa e fiel... Isso e apenas isso configurava uma traição. Infidelidade era coisa menor, passageira, indigna de nota. Isso era resolvível, mas um affair... Ainda mais de longa data, isso era outra coisa muito diferente.

Todos os pilares do casamento perfeito estavam abalados. Onde ele conhecera aquela mulher? Na noite, num bar? Apresentada por amigos comuns? Não. Aquilo cheirava a coisa complicada: orkut. Maldito orkut, fonte de dissabores. Malditos os amigos do peito, sempre prontos para camuflar escapadelas e coisa pior, maldita a cidade, cheia de ar poluído em todas as horas do dia, maldito marido, que mentira descaradamente durante semanas! Semanas? Não! Foram meses, talvez anos de trapaças muito bem feitas, já que ela nunca desconfiara de nada, nenhum perfume estranho, fios de cabelo, bilhetes nos bolsos. Mas, não sabia dos bilhetes nos bolsos porque nunca vasculhara suas roupas, jamais procurara por louros e longos fios de cabelo, e o único perfume diferente era o da sogra. E ainda por cima a amaldiçoada destruidora de lares era loira! Loira burra, claro, um metro e setenta, cinqüenta quilos, vestida de rosa. Damn! Uma patty!

O sangue ferveu. Paica começou a ver toda sua vida se desenrolar diante dos olhos, por agora úmidos de lágrimas, como um filme de Stephen King. Admitia tudo, mas ser trocada por uma loira burra era demais. Ela, ruiva e inteligente, dedicada e gentil, sendo escanteada por um affairzinho comum era intolerável. Fosse uma criatura cheia de personalidade e cultura, que soubesse conjugar verbos e onde fica a Austrália, justificava-se. Mas aquilo!

Era tarde para procurar nos bolsos uma comprovação da traição. Naquela manhã mesma Paica alcançara nas mãos do marido –aquele traidor!- papéis que estavam no bolso da calça junto com uma moedas, sem nem olhar –sua burra!. Devia ser o comprovante do motel, ou do jantar regado a vinho chileno, ou coisa pior: ele levara a outra na churrascaria dos sonhos! Paica desejou gritar de ódio e mágoa diante da imagem da outra se refestelando na costela de doze horas, enquando Litro alegava estar sem dinheiro para levar ela, a mulher perfeita, no aniversário de casamento. Mas não gritou. Perdera a voz. Estava muda para sempre, como a mulher do Persona.

Exausta pela dor do engano, de perceber o quanto fora incauta em acreditar nas juras de amor eterno (essa era mesmo clássica), assombrada pelos delírios de tragédia, esgotada pelo tempo de espera, decidiu deitar-se e aguardar o futuro com mais energia. Afinal, toda sua vida mudara num instante. Precisava estar forte para criar os filhos sozinha, agora que o companheiro a abandonara por umazinha qualquer. Ele nunca mais voltaria.

* * *

Quando Litro chegou, alto pelo trago, desejava apenas uma cama e dormir. Nem sexo, se lhe fosse oferecido, teria aceito. “Amanhã”, diria, “com certeza”. A noite fora movimentada e divertida, mas era o bastante. Dormir, não mais. Era tudo o que queria e estava certo de que Shakespeare escrevera essa frase após uma noitada dessas.

Deparou com ela, uma vassoura na mão esquerda um rolo de macarrão na direita e ambas na cintura, lançando fogo pelas ventas e agitando as serpentes vermelhas que normalmente se disfarçavam em cabelo. Ai, pensou Litro. Mas não teve tempo de dizer nem pensar mais nada.

Lembra-se apenas vagamente de ter dado informações desencontradas “Onde eu estava? Dando banda pela cidade, fiquei com o Che até as cinco horas, estava com o Che até quinze minutos atrás, dei banda por mais de uma hora." Não fechavam. Ou bem uma coisa bem outra, not both of them. Foi-lhe ordenado deitar e dormir. Imagina, uma adulto sendo mandado pra cama. Traição? Litro balbuciou um “minha honra ofendida” mas não houve chance de defender sua honradez. A quantidade de álcool ingerida dificultava a velocidade e a precisão das explicações e, finalmente, abandonou a honra, a verdade e a vida em favor da cama que lhe chamava e oferecia um mundo de paz, envolta em véus diáfanos, languidamente tremulando entre edredons e travesseiros de penas de ganso.

O resto da história teria de ser contada noutra noite, se essa lá estivesse e o sultão permitisse.

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Todo casamento perfeito tem dias de crônica do Verissimo.

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