
em o nome da rosa william de baskerville tenta salvar o livro da comédia (ou do riso), de aristóteles, do rancor de jorge, no mosteiro de ... blá (não lembro o nome dos mosteiro nem ninguém lembra, pelo que pude depreender da pesquisa que fiz na net). o livro muito provavelmente nunca existiu, o que não faz nenhuma diferença pois a idéia de que pudesse ter existido acaba por construir uma ilha crescente de possibilidades, tal um ramo novo a despontar de árvore velha.
lá mesmo umberto eco diz stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus, ou seja, "a rosa antiga permanece no nome, nada temos além do nome", numa referência às coisas que deixam de existir ou que nunca existiram mas mesmo assim deixam atrás de si um nome.
nesse sentido, o mal-entendido resultante de traduções intempestivas, equivocadas ou tendenciosas se manifestam como um elemento criativo na linguagem e no imaginário.
o mundo pode ser um lugar criativo, desde que vc se permita existir nele sem excessivo rigor. existem aqueles mal-entendidos que levam ao rompimento , outros à tragédia, mas esses são coisa de gente destrambelhada. não é o caso.
um equívoco de tradução criou uma das imagens mais interessantes com a qual tomei contato: mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico alcançar o reino dos céus. é uma máxima que aparece na bíblia, onde a palavra referente a corda foi traduzida como camelo. mas a idéia de um camelo esgueirando-se pelo buraco da agulha, encolhendo barriga e corcovas é, mesmo involuntariamente, um belo retrato do absurdo que beira um koan.
lembro de um livro que li ano passado, wizard's first rule, de terry goodkind, onde havia uma passagem que, na falta de vocabulário adequado (já que meu inglês é pobre de sarjeta), acabei interpretando de forma completamente errada.
seguia o protagonista por uma terra árida quando encontra uma região onde o chão estava coberto com os ossos de todos os reis do passado. não era isso. na verdade pendiam alguns esqueletos de árvores próximas, de alguns reis do passado. não existiram tantos reis que pudessem vir a cobrir toda uma extensa área com seus ossos, constatei a seguir, corrigido o engano. mas foi uma pena, pois a imagem que o erro proporcionou era muito mais forte do que a original. imagem não verdadeira mas muito mais dramática. como o camelo, que tenta atravessar pela agulha que, a bem da verdade, pertence à corda.
as coisas inexistentes tem forte apelo, como se estivessem encostadas na lâmina negra que separa os mundos, a espera da palavra libertadora, aquela a lhes dar nascimento. como os seres absurdos de daniel senize, aguardam, também eles, a palavra perfeita.
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stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus. no caso, imago.
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