Thursday, September 07, 2006

tatoos



lia dia desses um texto escrito por uma jovem -e vc sabe que a idade chegou quando se refere a alguém com mais de cinco anos dessa forma- que me surpreendeu. era duro, seco, muito grosseiro. e fiquei pensando que eu não sou assim, nem jovem nem grosseira, e que meus filhos estão crescendo para se viverem como aquelas palavras descreviam o amor, algo como uma experiência ameaçadora a qual não se evita baseado apenas nisso. mas apesar de estúpido havia lirismo -ora quem diria- na pontuação. uma respiração antes da palavra fatal, um ponto de afirmação na separação inequívoca do meu e do teu, o suspiro de desalento (e esperança) nas reticências... a gente sabe que a pessoa tem consciência da mutabilidade de todas as coisas pelas reticências

não há como evitar a pontuação, ela se insere no texto como na vida, deixando para trás as palavras doces e acrescentando novos significados aos silêncios quando não se pode deixar claro o que se sente, sob pena de ter-se diluído na fantasia de outrém. novos tempos.

o tempo não pode ser recuperado. apenas as lembranças nos apontam para o que se era e pretende supor o que será. já não pertenço a este tempo, das palavras cruas, nem a esse lirismo pueril que ainda crê. me insiro numa lacuna de memória, onde a história está gravada de forma invisível aos olhos despreparados. apenas aqueles que percorreram esse mesmo interstício, que atravessaram a lâmina das eras, podem reconhecer a linguagem cifrada que se delineia em tatoos levíssimas, coloridas com a mesma cor da carne, esmaecidas com a tonalidade dos dias que passam e que revelam, apenas aos olhos aquiecentes e desiludidos, as dores. em linhas frouxas a angústia da perda, em linhas sutis as esperanças esquecidas, em tênues mas disfarçadas a ansiedade do nascimento de outros jovens que, com suas palavras duras, secas e grosseiras desenham um mundo novo sobre os fósseis do que foi um mundo novo um dia.
é a renovação da vida.

seria desejável que todos os velhos, com suas biografias hieroglíficas, perecessem de uma só vez, na explosão de uma bomba de prótons específica? então estaria o mundo renovado, sem a ambição das infâncias mal-resolvidas, dos amores primeiros fracassados, que se traduzem continuamente em ânsia desmedida de poder. seria?

talvez não haja como apagar os vícios inseridos nos gens, nas lembranças remotas, nos esquecimentos que jazem em pântanos inacessíveis de todos os toques, olhares, sussurros...

em momentos jovens se tornariam velhos e novamente suas inscrições de carne estariam a lhes mostrar que duros, crus e grosseiros somos todos sob o verniz diáfano de nossa civilidade duvidosa.

mas chega este momento quando olho para minhas mãos, que foram lisas e coloridas, e vejo nelas o dia em que meus filhos nasceram, com toda a ansiedade de que nascessem bem e fossem felizes. são essas linhas aqui, vê? que desenhei torcendo os dedos enquanto preparavam a sala de parto. e há outras tatoos em meu rosto que leio como quem lê um pergaminho antigo, encontrado entre ruínas esquecidas, como um tesouro. e nele, todas as histórias que apenas eu sei.