Saturday, January 27, 2007

deserts in the heart




na tristeza há um deserto. mas é um deserto bom onde, além da areia cantar nos ouvidos e fustigar a carne, da nebulosidade que a tudo mistifica e mistura o horizonte com a água que dorme quieta muito abaixo, também tem uma sonoridade que acompanha os passos, marca o ritmo, um coração que pulsa silenciosamente.

atravessa-se esse deserto de livre vontade pois nele chegamos pelo amor que mesmo frustrado foi um dia vivo, ou pela decepção que nos alivia ao final da carga de estarmos certos e do fardo de conhecer de forma absoluta e imutável uma natureza que prima pela constante transformação. também pela perda, algumas tão terríveis que deserto algum suportaria a dor e desvaneceria em nada.

mas é no nada vislumbrado no tédio, abismo sorrateiro a murmurar juras de amor eterno, que reside o desfiladeiro, que ecoa voz nenhuma outra que não seja a própria a gritar sem som um pedido de algo. não um algo que assista mas exista, enquanto os cães ladram e o aborrecimento passa.

"senhor, livrai-me do tédio como da varíola, que obriga minha alma sedenta a buscar saciedade em qualquer água infecta, e do ego, que arrota os vermes que ingeriu. mas se não puderes afastar de mim este cálice, que pelo menos esteja cheio de coca-cola e o cão me seja calada companhia."


* * *

se schoppenhauer continuar a concordar comigo,
terei de mudar de filósofo.


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Saturday, January 20, 2007

the physician



há tempos não lia um livro de viagens e o físico, de noah gordon, é um belo exemplar :)

longos trajetos, paisagens inóspitas, silêncios preenchidos pelos pensamentos do personagem, é como viajar junto e conhecer a pérsia sob o olhar sem preconceitos de um jovem.

tive um lamentável encontro com marco polo e seu livro das maravilhas, que resume-se a contagens sucessivas : "nos dirigimos para a aldeia x, onde contamos vinte e duas mulas, dois leitões e nenhum cavalo pois todos se afogaram no bahahai, enquanto na aldeia seguinte, y, contamos dois cavalos, um negro um malhado e dois potros pequenos sujs de lama, treze galinhas brancas, dois barris de alcatrão, um velho vesgo no balcão da taverna suja", ou seja, um longo inventário despropositado para o leitor de viagens pois nada oferece das cercanias, da geografia, dos costumes e impressões sobre o idioma, onde a parte mais interessante foi o velho vesgo. chato, tão somente.

muito diferente desse, o criação de gore vidal é um passeio extasiante entre gente diferente, roupas coloridas, línguas improváveis, culturas exuberantes e muita, muita, muita estrada.
anos sem fim em caravanas, descobrindo o mundo, de desertos, pântanos a cordilheiras... como a vida.

blá, blá, blá. to escrevendo muito mal hoje. chuva, frio, tédio. vou dormir.


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z z z z z z z z z z z z z z z z z z z z z z


Monday, January 15, 2007

a dama no vento



a dama na água não é nada do que eu esperava. pra começar, pensei que teria mais água. bem mais água. não há. toda ela se concentra numa piscina de formato esquisito e no chuveiro da casa de cleveland. depois, esperava efeitos especiais incríveis. neca. o cachorro gramoso é ridículo. esperava mais azul e me achei num condomínio, coisa que detesto visto ser um lugar cheio de gente. esperava um shyamalan e .... aí que a vaca torce o rabo.


era tolo, mas cleveland me convenceu a ficar e ouvir o discurso. substância costuma ter esse efeito dizzing em mim, coisa de românticos. embora sua história pessoal viesse à tona em dado momento, não estava interessada em fatos, discutíveis, mas em ouvir um pouco mais do som que a profundidade costuma apresentar. a história tem altos e baixos, é oscilante e non-sense, logo estava navegando na indecisão, sem conseguir classificar o filme. bom pra mim, ruim pros meus miolos que ainda buscam uma definição e uma conclusão.

não há conclusão. é uma história de ninar transposta para um lugar improvável, onde as criaturas mais inverossímeis são os normais, dessas que a gente encontra todo dia, na padaria, no shopping, no caminho do trabalho. e essas pessoas são escolhidas para salvar o mundo. só podia dar merda. ou não. o decodificador é uma criança, os sinais da transcendência chegam em caixas de cereais, o curandeiro é um ex-médico, o conselho -que nada fez- são sete mulheres, das quais cinco nunca vimos antes, uma é irmã do salvador outra é interprete da mãe esquisita e a única que conhece a história. pois a única que conhece a história, a lenda original, não a transmite porque fala outra língua e acaba que a interpretação gera controvérsias e equívocos que, no final das contas, não interfere em nada na finalização da trama. se vc não entendeu e fez tudo errado, não faz diferença pois, no fim, tudo dará certo. hm. isso me lembra a vida real, por que será? além disso, não é de verdade mesmo. exceto pelo crítico. ele é real e é comido pelo cachorro verde. bem feito. quem mandou apontar as fórmulas espúrias e blablabentas que existem nos filmes? morra, maldito.


mesmo assim, gostei. não correspondeu à minha expectativa e isso é ponto a favor, penso eu. como não considero o mundo uma extensão do meu ego, fico feliz ao encontrar algo diferente de mim, das minhas idéias e interpretações.

já ia finalizar o comentário com acidez quando lembrei das coisas sem nome.... mas não é todo dia que acordo sensível. às vezes estou impregnada pelo mundo e esqueço, até que borges me recorde, que há tempos imperceptíveis e mensagens sem moral. e histórias de ninar que nos dizem para não falar com estranhos.


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...mas o que é o homem, quintessência do pó?


0.0

Saturday, January 13, 2007

dragonish thoughts



there is a place between the life and the nothingless where one stay while is waiting for a conclusion. the hollow is a safe spot but it is not a home. it's wise to remember this tiny thing. however... who knows about where are going to? or how long one will be waiting for? with dragonish thoughts in the heart can the hollow be a door.


quem sabe dos tortuosíssimos caminhos que conduzem a algum lugar? qualquer lugar, no tempo ou no espaço, em ambos ou nenhum dos citados, enquanto sorve a cervejinha nossa de cada dia, esperando nem godot nem o trem, mas simplesmente que a porta -aquela porta- finalmente se abra?

atravessar um campo de dunas ouvindo cold water é uma experiência indivisível por qualquer número primo ou segmentável em instâncias decisórias. apesar de percorrermos cotidianamente caminhos atapetados de lírios críticos, ainda somos capazes de reunir em uma cesta de vime úmido um pouco de peixe e um jarro de poesia, para compartilhar e multiplicar nos dias sombrios da estupidez infinita.


há refúgios, entrementes. entre mentes, há refúgio.


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o tempo e o espaço são modos pelos quais pensamos
e não condições nas quais vivemos.

(uma pedra)

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comédia de erros



o recente episódio de bloqueio do site youtube oferece-se como lamentável comédia de erros.


alguém que abdicou de seu direito à privacidade requer na justiça que ele seja respeitado; muda de idéia após assinar a ação mas não retira o processo; judiciário determina que o direito à privacidade seja respeitado desconhencendo o processo técnico que inviabiliza sua execução; empresas de comunicação, incapacitadas de cumprir a decisão judicial, bloqueiam sinal indo muito além do determinado e da sua ingerência; judiciário suspende determinação visto que a decisão, impossível de ser executada nos termos deferidos, fere o princípio da proporcionalidade; diante da censura resultante imposta aos internautas, todos retiram o que disseram, fizeram, pensaram, deixando no ar um cheiro de arbitrariedade, injustiça, ignorância, incompetência e despudor, resultando que o video, origem da disputa, agora é distribuido por inúmeros outros sites e arquivos de compartilhamento pessoais, demonstrando que quem deseja ter seu direito de privacidade respeitado deve usar de privacidade em primeiro lugar.

considerada a primeira peça de shakespeare, a comédia dos erros não é um texto leve, onde os enganos provocados pelas pessoas que conversam alternadamente com um gêmeo e o outro delineiam uma trama em muito semelhante ao telefone, brincadeira infantil que consiste em transmitir uma informação ao longo de uma sequência de agentes que acrescentam, transformam, omitem partes da informação, resultando perder-se o sentido original.

tal foi o caso youtube. mas não resumiu-se nisso e poderia quedar-se como enganos sucessivos, misunderstandings only. entretanto, com os comentários do último despacho, o desembargador encarregado do caso mostrou-se satisfeito com o resultado secundário de saber que seria possível bloquear a internet.

ninguém achou que não fosse. a questão é a quem interessa fazer esse bloqueio em tempos em que se alega a consolidação da democracia. que interesses se satisfariam em descobrir meios de alienar a população do direito constitucional de ir e vir, no espaço virtual. o caso nos mostra como, indiferente aos anseios da humanidade de exercer o direito de integração social e de manifestar-se plenamente em todos os segmentos disponíveis, a mentalidade vigente ainda é francamente coercitiva, a atribuir-se poderes supremos sobre a decisão soberana do indivíduo sobre o que concerne exclusivamente a sua vida, sua expressão como individualidade e dignidade.

"O Poder Público não pode desapropriar qualquer direito da personalidade, porque ele não pode ser domínio público ou coletivo."

Direitos da personalidade : direito à vida, direito à liberdade, direito à honra, direito à privacidade, direito à identidade pessoal, direito à integridade física e psiquica, direito à imagem, direito moral de autor.

esta comédia de erros não resultou leve, tampouco.
ergueu-se uma espada de dâmocles sobre a população que utiliza a internet como meio de comunicação, informação, estudo e lazer, mas não a esses somente. configura-se uma ameaça à democracia, que não chegou trazida pelas ondas, numa praia da espanha.

muito sangue e lágrimas nos custou, a nós, o povo.


* * *

"No reino dos fins tudo tem ou um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa tem um preço, pode-se pôr em vez dela qualquer outra como equivalente; mas quando uma coisa está acima de todo o preço, e portanto não permite equivalente, então tem ela dignidade."
(Immanuel K.)

>:(