Sunday, February 25, 2007

Ouvidos moucos tem o tempo




há vários tipos de silêncio. por certo não é apenas ausência de som, pois nunca se tem essa barbaridade plenamente. tímpanos explodiriam! há sempre um zumbido no ouvido, o rrrr do ventilador, um grilo lá fora que extraviou-se no caminho da roça e acabou na selva, murmúrios, tosses, tiros, um grito de horror, enfim, esses sons normais que nem ouvimos pelo costume.

mas há níveis de silêncios que merecem a atenção ocasionalmente e que não pertencem ao costumeiro. há o silêncio dos filhos que dormem. quando dormem, podemos nos ouvir os pensamentos novamente e estes chegam mesmo a romper barreiras de decibéis tão gritantes estavam antes do sono bendito chegar.

há o silêncio constrangedor, quando alguém (contanto não seja você) disse uma merda e deseja desesperadamente que o chão se abra sob os pés. contra todas as probabilidades de tal coisa acontecer, o gafento reza interiormente para que deus faça um milagre de separação das terras, lajotas, parquês e pisos assemelhados, proporcionando-lhes um rápido meio de fuga. se for você, ainda terá alguns segundos em sorrisos antes de perceber que fez muito mal em adotar o ateísmo, pois vai que um deus te faz essa caridade e você perdeu a deixa. quem mandou pensar? coisa de tolos.

há o silêncio do tempo. ele flui mas você não o ouve. escuta o relógio, máquina iludida, vê as mudanças mas o tempo, nop. ele entra mudo e sai calado, ano vem, ano vai, não se justifica nem dá explicações pelas rugas, pelas flores mortas, pelos desaparecimentos daqueles que amamos (coisa que credita a outras divindades), pela coca-cola que nunca está na altura que deixamos. o tempo faz ouvidos moucos às nossas súplicas de que páre ou diminua a velocidade.
impávido colosso, tempus est.


há o silêncio da morte. como ainda não morri, me abstenho de falar dele. DEATH, por outro lado, gosta de um bom papo.

mas há (ahá!) o silêncio do segredo. nele, esperanças afogaram-se quietamente, ovelhas num matadouro invisível, onde o guardião do segredo retém a chave da alma de quem lhe ofereceu a verdade. no segredo, que não pode ser compartilhado sob pena de difundir-se por todo o universo em grandes ondas de revelação ostensiva, só é secreto quando afunda em si mesmo. e leva consigo aquele que se dispôs ao diálogo.

dispomos de nós mesmos com amplos poderes embora não nos apercebamos disso com frequência ou mesmo quase nunca. o poder de outro sobre nós é uma concessão temporária que podemos recolher a qualquer instante, um contrato a ser rescindido em um momento, bastanto que uma das partes o rasgue em pedacinhos bem pequenos.

mas no amor, colocamos nas mãos de outro a chave. de livre e espontânea vontade. e quando observamos o cadáver que oscila levemente sob a água, posto a dormir pelo não-dito, pálidas faces, rancorosas mãos em dádiva, olhos brancos e mortos ainda em súplica, não podemos recuperá-la. pelo menos não até que estejamos dispostos a enfrentar o segredo, o silêncio, os guardiões. e, mesmo lamentando, reconhecer que o que foi perfeito, acabou.

é o preço do silêncio.


* * * * *


shhh!!! ... que estamos a nos esconder
atrás de desculpas esfarrapadas...


>:(