
sempre que leio uma crítica aos livros de harry potter não posso deixar de perceber uma ponta de inveja. há uma acidez na análise característica de petúnia, que não podendo ser bruxa optou por ser o pior tipo de trouxa. assim são os críticos, isolados pela sua falta de talento, buscam denegrir a obra alheia de maneira a não se sentirem tão miseráveis.
admito, jk rowling não é jorge luís borges, que aponta a incerteza da realidade e questiona as impossibilidades; também não é gabriel garcia marques, que descobriu (ou inventou) sozinho os arquétipos latinos, ignorados pela maioria a louvar os gregos como os únicos criadores de grandes mitos. jk também não é james joyce mas convenhamos, quantos são joyce? mais ainda, quantos leram joyce? conta-se nos dedos de uma mão. no entanto, muitos têm esses livros na prateleira, demonstrando conhecimento literário que, a bem da verdade, desprezam.
vivemos num mundo de aparência. quem melhor veste as roupas projetadas para cabides, desejáveis se tornam. assim com a literatura. críticos, solitários em suas juventudes recheadas de sombras e ladies macbeths invejam o que o leitor comum, que não tem compromisso com a aparência nem com a intelectualidade, usufruem : o que de bom um autor tem a oferecer, mesmo que lhe tenha sido apontado inúmeras vezes, incessantemente, o papel ridículo ao qual se submetem. "gostar de harry potter? que absurdo. leia camões. em grego!"
a acidez frequentemente passa raso por cima das questões levantadas pelos livros, dirigidos ao público jovem -embora numa questão bastante controvertida que envolve a pressão das corporações livreiras incomodadas com o monopólio estabelecido por harry potter na lista dos mais vendidos- com certeza, mas adotado por milhões de adultos como se a eles também fosse contada a história, como se amizade, lealdade, coragem fossem assunto de criança. depois, essas mesmas pessoas criticam os governantes, que não tiveram coragem de enfrentar o público, ou os representantes políticos que traíram a causa, e ainda aqueles que não foram capazes de retribuir uma amizade oferecida sinceramente.
muitos pesos e muitas medidas. seriam os cínicos os últimos remascentes de inteligência na terra? pelos críticos, parece que sim. sejamos cínicos, então. ignoremos o apelo feito aos jovens que nunca leram um livro e devoraram as milhares de páginas dessa série que, finalmente, acabou. ou o envolvimento de milhões que compartilharam questionamentos e que não se resumiram aos elementos enigmáticos contidos nos livros mas que buscaram compreender filosoficamente -pela primeira vez na vida- o que significa ser humano, quais as consequências de participar de um grupo social, da responsabilidade de combater por uma causa, ou o quanto é antiga a questão primordial de quem somos e porque estamos aqui. ou ainda porque entendemos aquilo que é diferente como uma ameaça.
a busca de harry por uma identidade, negada pela família abusiva que o criou, através de parcas memórias e explicações que lhe foram pingadas por parte do "ídolo" dumbledore, enquanto precisava crescer entre mais inimigos que amigos e sofrer a ridicularia, por estar sempre sob os holofotes onde não queria estar, além de superar o abandono profundo que carregou desde a morte trágica dos pais além de a si mesmo, não deve ser encarada como uma trama com profundidade. segundo os críticos, essa realidade adversa e punitiva não é digna dos melhores intelectuais. mas pergunto, se o sofrimento não merece o olhar cauteloso do crítico, o que merece?
vivemos pois num mundo cínico, em que a dor alheia não suscita nem simpatia nem compaixão.
o que é boa literatura senão aquela que revela? sejam mundos inesperados mas adivinhados, relações atávicas, ou a constituição mineral que nos conforma e nos relaciona a tudo o que existe. a dor, que nunca está muito longe, e a superação, desejável. pode ser ainda apenas diversão; mas há uma força no riso que os seguidores de jorge -não o mago, mas seu duplo em o nome da rosa- jamais conhecerão, envolvidos que estão em envenenar as páginas do livro da comédia e em afirmar-se aos outros cínicos numa competição infindável de imbecilidade.
mas não importa, a mim, o que os críticos estão a ruminar. li com prazer muitas vezes redobrado todos os livros da série até este último, eletrizante, inesperado, empolgante e maravilhoso. amei cada parágrafo e não me neguei o direito de ser feliz. é mais do que muita gente pode dizer.
* * *
support the man with the lightning scar!
:)))))
support the man with the lightning scar!
:)))))

