
acho interessante que uma animação como esta, Howl's Moving Castle (Hauru no ugoku shiro) -- e o livro que lhe deu origem, de Diana Wynne Jones-- seja apreciado apenas por pessoas bem jovens quando trata de um assunto basicamente adulto. é possível que sua forma ainda bastante restrita aos jovens, que é o anime, acabe por afastar o público mais velho que o toma levianamente. no entanto -à parte a magia que o classifica como fantasia- a questão do envelhecimento e do culto à beleza é o tema central na trama.
howl é vaidoso e aparentemente fútil, contrastando com sophie, que é objetiva, prática e realista. ela não se acha bonita e sofre por isso, howl usa de magia para manter a beleza e sofre quando a perde, mesmo minimamente. obviamente o envelhecimento acaba com a beleza física, e as pessoas que se tenham harmonizado consigo mesmos sofrem menos essa perda, pela aquisição de valores mais perenes, do que aquelas que identificam-se com sua aparência. nesse sentido, o prejuízo de howl é maior do que o de sophie, pois ela não sente a velhice súbita como uma perda significativa - aparte o dolorimento do corpo e a dificuldade de locomoção- a não ser quando apaixona-se por howl e percebe que o abismo que os separa pode ser intransponível caso ela não seja capaz de desfazer o feitiço.
mas há outra perda insuperável na história que advém - veja a ironia- justamente da bruxa das terras abandonadas. por ciúme (ou por engano, depende da versão se filme ou livro) ela, que é apaixonada por howl, acaba por reuní-lo a sophie, que, como ela, é velha. a bruxa tem mais de cem anos e luta permanentemente, como howl, com uso de magia, para manter sua juventude e beleza. no entanto ela teria a desculpa válida de que age dessa forma apenas porque não poderia vir a ser amada por howl fosse diferente a situação. a velhice, com as perdas físicas que encerra, não admite o amor, especialmente entre pessoas de idade díspares como a dos envolvidos.
howl, no entanto, vem a amar sophie. não porque ela é jovem e bonita, mas porque ela é sophie e lhe faz o perfeito contraponto, com sua personalidade realista e corajosa.
evitamos encarar essas perdas, inevitáveis, esperando que elas nunca venham a acontecer conosco. já é suficientemente ruim que ocorram aos outros, mas envelhecimento e morte virá, como a única coisa certa numa vida longeva.
mesmo que campanhas pela terceira idade acabem chamando a velhice de melhor idade, bem sabemos que não é exatamente assim. há a deterioração do corpo, que exige mais cuidados e permite menos extravagâncias, há um certo enfado do mundo que se torna por demais conhecido, há a tristeza decorrente das coisas que não fizemos e talvez não tenhamos tempo de retomar. muitas vezes desiste-se a meio caminho, estabelecendo os padrões dos outros como aplicáveis a nós mesmos, e jamais saímos em busca de uma nova visão - ou de uma nova paixão. mas isso pode acontecer em qualquer idade. como ocorreu à bruxa das terras abandonadas.
já o amor, é transgressão.
:)








