Sunday, May 18, 2008

paisagem de chá




tenho observado por que meios a palavra conduz. já sabia as falácias -- quando um discurso dirige o entendimento do ouvinte e suas conclusões para onde o orador pretende, desacreditando um outro discurso indesejado por razões circunstanciais ou confundindo e dificultando uma resolução -- e me divertia procurando-as nos dircursos populares, num exercício de racionalidade e lucidez. mas embora "soubesse" quando um texto ou frase manifestavam plenamente uma idéia, capaz de elevar o leitor a um outro patamar de entendimento, me fugia o "como". eis que começa a se abrir esse admiravel mundo novo aos meus olhos e compreensão visitando textos já conhecidos com uma lupa literária. uma tarefa detetivesca como é do meu agrado. assim que palavras cuidadosamente escolhidas criam um quadro diante do leitor que o faz entender um todo complexo que de outra forma seria descritos em inúmeras outras palavras. esse resumo contido na palavra escolhida, representativa na mesma eficiência que a cor comunica a emoção contida, determina o quanto uma obra literária será perene. frases excelentes são entendidas em qualquer tempo. a história, a trama, o assunto, é o de menos. mas não repita isso pois todos aqueles envolvidos com a literatura terão crises de úlcera súbitas diante da afirmação incontida.


por exemplo na frase acima "incontida" revela que a compulsão de dizer que o que é, é deveria ter sido contida num pudor cuja motivação me escapa, podendo estar relacionada a uma certa insegurança de quem lida com a palavra de uma forma geral que prefere atribuir a arte das letras a inspiração etérea concedida, sem razão ulterior, a um talento dela merecedor. uma visão irracional que estabelece hierarquias, e poder consequentemente, e portanto não deve ser elucidado e muito menos compartilhado. ou seja, "caida do céu por descuido, louvado o céu, amém. representantes celestes passarão a cestinha do dízimo".

tivesse usado a palavra "proferida", estariamos diante de uma situação totalmente diversa.

o comércio, louvado o comércio, nos fez o que somos hoje. vendemos o que sabemos e produzimos sempre um pouco menos do que aquilo que rebemos, de maneira a manter o pulo do gato em segredo. o fato de termos chegado tamanha distância da caverna do neanderthal (e tão pouca da de platão) nos faz crer que, ao contrário, muito compartilhamos, dividimos e distribuimos mas observe de que forma os sistemas corporativos funcionam. eis que a abundância muitas vezes é tanta que transborda e, assim, pela própria natureza do conhecimento, acaba redistribuindo-se, semeando entre todos o que deveria ser de todos pra começo de conversa.

está claro? não. a intenção não é a de elucidar.

a palavra é um mundo. cada palavra guarda em si a possibilidade da realização, podendo ferir ou libertar, enaltecer ou esconder, mostrar e sangrar.

qual sua palavra hoje?
minha palavra hoje é "sabia". pressupõe um conhecimento prévio e adquirido, e um conhecimento da verdade porque não se pode saber o que não é verdadeiro. apenas o verdadeiro pode ser conhecido.

enfim, paisagem pintada com chá é um mostruário de frases excelentes, todas de impacto, todas reveladoras, intensas, extasiantes, sobre as quais o autor deitou suas noites e vagou seus dias, mas que erguem-se de tal maneira súbito diante de nós, pobres leitores, que tornam impossível a leitura e nos degredam de sua presença, da trama, que permanece velada até que tenhamos criado uma casca outra que a emoção a enfrentá-la, literatura-deidade, guardando para si o silêncio revelador enquanto grita a plenos pulmões. cã!


quero receber da amazon pela propaganda, by the way:
landscape painted with tea


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o único combate é o bom combate.
o resto é chacina.

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