
caí cedo da cama. encontrei café pronto (meu amor tinha feito) e me servi de uma jarra que adocei com aspartame. frio pede café, café pede aspartame. peguei o jornal e li os encartes, um velho hábito. decidi não comprar nenhum dos fogões de aço inoxidável por 1499,90, nenhum dos microondas de aço inoxidável por 899,90 e nenhum dos pratos nem copos de aço inoxidável por 99,90 cada 2.
recusei os liquidificadores - e olha que havia promoção de um marca Diablo por 29,90 concorrendo fortemente com outro marca Conhecida por 139,99 de aço inoxidável. não comprei o laptop por 1.199, 90 inoxidável pois não tinha a placa de video graphics jhvhvkhbkjjbjb-365432565, sendo portanto inútil para jogar age of empires, age of civilizations and civilizations fast forward. um abuso.
enfim, após negar todas as imperdíveis ofertas, saboreei o prazer e o deleite de ter exercido minha vontade contra os apelos consumistas e os convencimentos publicitários. mal acordei e já estou pelo menos 3.729,70 pilas mais rica. ou menos pobre, como queira.
afora todo o aço inoxidável, nenhuma novidade no jornal. cpi, lei seca, morte, propaganda. e só então percebi que estava um ano mais velha em relação ao ano passado, dez anos mais velha em relação à década passada e que ainda não completara meio século, então nenhuma referência ao século passado. e percebi também que, assim como os encartes, insisto em recusar as ofertas de envelhecimento. não comemoro nem lamento pois não me sinto -apesar da mídia que me afirma e das associações que apoiam a felicidade na terceira idade- velha. me sinto mais cansada hoje varando uma noite no computador do que quando passava noites nos botecos, e tem dias que me sinto fisicamente acabada mas tenho um monte de desculpas para isso, mas velha, não.
meu marido é jovem, meus filhos são jovens, só o cachorro já está mais pra lá que prá cá, e vejo que estou cada vez mais conectada com a modernidade, a contemporaneidade, a pós-modernidade e essas coisas que inventam. arte não me surpreende, já havia pensado naquilo, e a tecnologia está sempre um passo atrás do que necessito (exceção feita ao aço inoxidável que passou a recobrir tudo, inclusive as caras-de-pau). lamento apenas que, entendida a maldita html, passou-se para css >:( de formas que está tudo, mesmo com Alz, em cima.
frequentemente me sinto vivendo no meio de brasil - o filme, entre modas que variam do chapéu de sapato e da aceitação inquestionada, seja da roupa, do representante político e sua própria cpi, da ideologia, dos parâmetros de conduta, das verdades anunciadas. isso se deve a outro mau hábito: pensar. e o cara lá de cima (da figura, não a deidade) não chora sobre o tempo derramado, ele pensa, pois quem envelhece tem mais no que pensar e pode usufruir o tempo vago para isso. não mais é obrigado a sair pra balada nem precisa provar nada a ninguém, seja o chefe, às figuras de autoridade internalizadas, aos filhos, a si mesmo. pode viver esse prazer, de juntar peças e concluir, comparar e resumir, interpretar e criar, e observar sua criatura tomar forma onde ninguém, nenhum homem jamais esteve: inside. então, se você pensa, cria, compara, identifica, bloga, questiona, critica, se diverte, você não é velho nem jovem. você simplesmente está vivo.
estou com dedos de pianista para falar do call center mas vai ficar pra outra hora. este post não ficará nas tags chutando o balde.
até mais, querido diário.
:)