Sunday, May 16, 2010

jelly tomorrow, jelly yesterday











mas, como diz a rainha branca, nunca geléia hoje. essa é uma interessante assertiva para algumas vidas, que existem em função do passado, o que foi, e o que poderá porventura um dia ser. viver dessa forma é um caminho inequívoco para o câncer ou o sanatório. a frustração quando cotidiana e repetida, de um sonho que nunca se realiza ou de uma situação que jamais se repete ou renova, pode ser devastadora.

como na festa do chá do chapeleiro louco, a reunião nunca termina pois aquele que teria os meios de encerrá-la não está presente. o tempo foi assassinado pelo chapeleiro, acusação pela qual ele recebeu a condenação à morte pela rainha de copas. não estando o tempo presente, sempre é hora do chá.

nesse país de maravilhas não importa a verdade, o que é, mas o que poderia ser, parece ser, deveria ser, de maneira que o chapeleiro, mesmo não sendo o culpado pela morte do tempo, deverá pagar o preço desse aparente desaparecimento senão com a cabeça -already lost- com a repetição infindável de uma mesma situação : desejando uma xícara limpa, pula-se um lugar na mesa mas a festa não termina. não há um momento para descansar, para partir, para existir de outra forma que não seja nessa festa interminável. ele está condenado, com xícaras e bules, à repetição, sem que esta venha a prenunciar, nem de leve, uma finalização.

o chapeleiro é sísifo, também condenado a rolar a pedra morro acima, a repetir a ação no dia seguinte e isso pela eternidade. enquanto sísifo era culpado dos crimes dos quais foi acusado, o chapeleiro, por sua vez, não o é. o que leva alguém a sofrer voluntariamente as penalidades de um crime não cometido, especialmente se não há de fato um morto? o chapeleiro segue em sua punição porque acredita ter feito aquilo de que foi acusado. mesmo que a vítima esteja às vistas, ele não o percebe. envolvido nesse delírio pessoal de culpa ele prende-se à repetição de seus dias.

não é o fato de ser o tempo, pretenso assassinado, abstrato que venha a facilitar a remissão do chapeleiro. como provar-lhe que o tempo segue existindo quando sequer podemos afirmar que ele tenha existido? apenas podemos confirmar as consequências do tempo, comprovar sua passagem pelos resultados sobre as coisas existentes; o que cresce, o nasce, o que apodrece e morre, o que muda.

não há verdade outra para o que crê, é sempre um prisioneiro de sua crença e, sem cadáveres, sem vítimas comprováveis, abstratas que são as culpas, jamais há uma libertação, uma remissão, qualquer finalização. não se há de poder levar ao olhar do culpado esse que devia estar morto e dizer-lhe como não está. a abstração não admitite corpo e, sem esse corpo de delito, há sempre a possibilidade da acusação ser verdadeira. para o chapeleiro, o que pode ser, é.

no entanto ele não se sente completamente um prisioneiro pois ele é louco e na loucura encontrou a libertação negada pela realidade. na loucura o caminho para abandonar a prisão e vagar pelo país, em sua mente. o chapeleiro louco, então, embora prisioneiro da festa eterna, pode imergir na loucura, no nonsense, no absurdo, no despropósito e no descontrole e ser deixado em paz.

"aquele que é tocado pelo louco não pode ser curado".



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